Caminhar e Perder-se
É frequente as pessoas com demência começarem a caminhar sem motivo aparente, em casa ou na rua.
Enquanto em casa este comportamento pode ser desgastante para o cuidador mas pouco perigoso para a pessoa com demência (se controlarmos os riscos de queda e lesões), se acontecer na rua o perigo é muito maior. A pessoa pode começar a andar por algum motivo e, devido às dificuldades de memória, orientação e perceção, ficar confusa, perder-se e ser incapaz de reconhecer onde está ou saber como ir para casa ou para algum local familiar.
Apesar de ser comum e poder acontecer em qualquer altura da doença, este comportamento é particularmente frequente em fases iniciais, nas quais a pessoa ainda mantém bastante autonomia para fazer algumas atividades no exterior e a sua capacidade de andar está menos afetada.
A consciência de que a pessoa com demência pode começar a caminhar a qualquer momento na rua e perder-se é algo que pode provocar bastante stress e ansiedade aos cuidadores, aumentando o seu desgaste.
O que faz com que a pessoa comece a caminhar sem motivo aparente?
- Existe sempre um motivo. Apesar de muitas vezes parecer que a pessoa com demência está a caminhar sem motivo, a realidade é que para a pessoa esse comportamento serve um propósito. Nem sempre é fácil compreender esse motivo, e por vezes não vai ser possível, mas se o compreendermos isso ajudará a lidar, reduzir ou minimizar esse comportamento;
- Necessidades físicas. A pessoa pode estar a tentar dar resposta a uma necessidade física – sede, fome, necessidade de ir à casa-de-banho ou de fazer exercício – e ser incapaz de o expressar de outra forma;
- Memórias desencadeadas. As pessoas podem também começar a caminhar para dar resposta a um impulso de “ir a algum lado” ou de “fazer algo” provocado por uma memória ou um estímulo. Por exemplo, a pessoa ouvir uma conversa sobre cumprimento de obrigações, trabalho ou dinheiro e, devido à confusão provocada pela demência, achar que está no passado e que precisa de ir trabalhar, e por isso sair de casa;
- Estímulos do ambiente. A pessoa pode começar a caminhar porque viu ou ouviu determinado estímulo que a atraiu. Por exemplo, botões de um elevador ou uma maçaneta de porta, ou estar na rua e escutar uma música alegre ou familiar. Pode também estar a reagir a um ambiente com excesso de estímulos (muito barulho ou locais com muitas pessoas, como mercados ou restaurantes), ficarem confusas e assustadas, e começarem a andar para sair daquele local;
- Falta de estimulação. A pessoa pode estar aborrecida por não ter qualquer ocupação ou estimulação e começar a caminhar porque sente a necessidade de fazer algo, mesmo que não saiba o quê;
- Desorientação. Podem estar num local pouco familiar, ou num local familiar que já não conhece, e começarem a andar para tentar encontrar algum ponto de referência que as oriente;
- Reconhecimento do ambiente. Em fases mais avançadas da demência, por vezes a pessoa caminha muito dentro da própria casa (até seguindo alguns padrões). Uma explicação para isso prende-se com o facto da pessoa já se encontrar muito confusa e desorientada devido à doença, esquecendo-se rapidamente do ambiente onde está, pelo que esse andar constante é uma tentativa de perceber e definir o local onde se encontra.
O que fazer?
- Perceber se é um problema. Caminhar não é necessariamente um problema, a não ser que a pessoa esteja em risco de se lesionar, de que alguém se aproveite dela ou de se perder. Se a pessoa estiver a caminhar sem nenhum desses riscos, então talvez não haja necessidade de tentarmos parar esse comportamento;
- Simplificar o ambiente. Reduzir a desarrumação, o excesso de estímulos visuais e de ruídos de fundo. Esses estímulos podem agitar a pessoa e fazer com que se queira ir embora do local onde está;
- Evitar sítios muito movimentados que geram confusão e podem causar desorientação, tais como centros comerciais;
- Não deixar a pessoa com demência sozinha caso o meio ambiente seja novo ou tenha sofrido alterações, pois isso pode causar confusão, desorientação ou agitação;
- Se a pessoa com demência parecer aborrecida ou irrequieta podemos:
- Incentivá-la a exercitar-se para ajudar a reduzir a ansiedade, a agitação e o nervosismo. Por exemplo, dar um passeio, dançar, andar de baloiço, atirar um balão ou fazer exercícios de cadeira (ginástica feita com a pessoa sentada numa cadeira);
- Encontrar momentos de ligação com a pessoa, de forma a estimulá-la e tranquilizá-la, tocando-lhe de forma gentil, recordando momentos agradáveis da sua história de vida, conversar, contar histórias, recorrer ao humor, fazer jardinagem, recorrer a animais de estimação, ente outras atividades;
- Tentar ir para o exterior ou proporcionar uma mudança de contexto: levar a pessoa a lanchar ou comer um gelado, a visitar uma loja de animais ou um museu, dar uma volta de carro por locais com paisagens agradáveis;
- Favorecer oportunidades para a pessoa se envolver em atividades estruturadas e significativas ao longo do dia, e em atividades diárias como dobrar roupa lavada ou preparar o jantar;
- Identificar a altura do dia em que é mais habitual a pessoa começar a andar, e planear atividades para essa altura (para as pessoas que experienciam a Síndrome do Pôr do Sol, a altura será entre o final da tarde e o início da noite).
- Se a pessoa tenta ir-se embora porque está assustada ou agitada podemos:
- Manter a calma. Considerar chamar um familiar, vizinho ou amigo para estar presente no caso de se precisar de ajuda;
- Perceber o que pode ter desencadeado o comportamento, por exemplo, um barulho alto, um espaço muito movimentado, uma alteração da rotina ou o próprio estado emocional do cuidador;
- Não impedir fisicamente a pessoa de caminhar, a menos que ela se encontre em perigo evidente, como risco de ser atropelada ou condições meteorológicas adversas. Impedir a pessoa pode torná-la mais agitada ou agressiva, dificultando a situação;
- Seguir a pessoa com alguma distância, respeitando o seu espaço pessoal. Tentar redirecionar gentilmente a pessoa, recorrendo, por exemplo, a referências ao tempo ou estímulos observáveis no momento. Pode-se dizer algo como:
- “O tempo está mesmo frio e nublado hoje. Queres tomar uma bebida quente comigo?”;
- "Olha para estas flores tão bonitas! Qual é a tua flor favorita?”;
- Usar indicações positivas em vez de negativas. Dizer, por exemplo, “Vem comigo,” e não “Pára, não vás para aí”.
- Se a pessoa com demência está a tentar ir-se embora para “ir para casa”, mesmo quando já se encontra em casa, ou para “ir para o trabalho”, mesmo que já não trabalhe, devemos:
- Manter uma postura calma e tranquilizadora e não controladora;
- Estabelecer uma ligação emocional com a pessoa nesse momento;
- Não tentar convencer a pessoa de que já se encontra em casa ou de que já não trabalha. Isto poderá provocar uma discussão e tornar a pessoa agressiva e mais insistente em relação ao que acredita ser a verdade;
- Entrar na realidade em que a pessoa acredita no momento, e ir tentando guiá-la para outra atividade, sem que ela se aperceba de que está a ser redirecionada;
- Usar comunicação encorajadora e focada na distração, por exemplo:
- Como é que foi crescer na tua casa?
- Qual é a tua divisão favorita da casa?
- Podemos ir a seguir ao almoço. Podes ajudar-me a pôr a mesa?
- Gosto muito de ti. Isto é difícil. Vamos superar isto juntos.
- Preparar a casa. Se a pessoa apresentar a tendência para caminhar bastante dentro de casa, é importante avaliar quais os riscos para aquela pessoa em concreto – sair de casa e perder-se, quedas ou lesões – e perceber que medidas de segurança poderão ser úteis adotar para prevenir esses riscos.
- Algumas estratégias para evitar que a pessoa saia de casa se existir risco de se perder são:
- Retirar ou tornar menos visíveis objetos ou artigos que levem a pessoa a pensar em sair, tais como chaves, carteiras, sapatos, casacos, chapéus ou malas;
- Colocar um sinal grande com as palavras “Não Entrar” nas portas de saída;
- Para tornar uma porta menos visível (camuflar) e desencorajar a pessoa a sair de casa ou a entrar numa divisão que não seja segura: colocar uma planta ou uma peça de mobiliário à frente da porta, pintar a porta da mesma cor da parede ou tapar a porta com uma cortina ou biombo. No entanto, é preciso perceber se isso gerará frustração e agitação na pessoa com demência por saber que existe uma porta em casa e não a descobrir;
- Tapar maçanetas com um tecido da mesma cor da porta, ou usar maçanetas de segurança para crianças.
- Trancar a porta e guardar a chave num local seguro. Enquanto nalguns casos trancar a porta da rua ou de uma divisão da casa que coloque em perigo a pessoa pode funcionar, noutros casos as pessoas poderão reagir mal, sentindo que estão presas e ficando agitadas ou agressivas. Nessas situações torna-se necessário pensar em alternativas a trancar as portas;
- Nunca trancar uma pessoa com demência em casa ou dentro de um carro sem a pessoa estar acompanhada;
- Caso manter a porta fechada ou trancada gere agitação na pessoa com demência, pode experimentar colocar-se na porta um objeto que faça algum som quando a porta é aberta (por exemplo, um guizo ou sino);
- Colocar sebes ou uma vedação à volta do pátio, quintal ou qualquer área exterior da casa.
- Algumas estratégias para evitar que a pessoa caia ou se lesione são: remover cabos, fios, tapetes ou desníveis do chão, em que a pessoa possa tropeçar, garantir que o chão não é escorregadio e assinalar os degraus e colocar fita antiderrapante. Para mais informação, consulte Prevenção de Quedas;
- Para estratégias mais aprofundadas, consulte o módulo de Adaptação do Ambiente.
- Estarmos preparados para a possibilidade da pessoa com demência sair e perder-se. Caso isso aconteça, é importante ter um plano delineado para sabermos o que fazer de imediato. Algumas estratégias são:
- Manter num local acessível, como a carteira ou o telemóvel, uma fotografia ou vídeo recente e em grande plano da pessoa, para entregar ou enviar à polícia, em caso de necessidade;
- Informar o resto da família, os amigos, os cuidadores formais e os vizinhos que a pessoa está em risco de sair e perder-se. Pedir-lhes que estejam atentos e que alertem os cuidadores principais caso vejam a pessoa a caminhar sozinha no exterior;
- Informar trabalhadores locais tais como a polícia, os bombeiros ou funcionários de lojas que a pessoa está em risco de caminhar e de se perder e assegurar-se de que têm o número de telefone do cuidador informal.
- Fazer uma lista de locais prováveis para onde a pessoa se possa deslocar em caso de ser necessário fazer uma busca (trabalhos antigos, casas antigas, restaurantes ou cafés favoritos ou locais de culto como igrejas);
- Fazer um levantamento das áreas perigosas perto da casa, tais como grandes massas de água (lagos, rios), escadarias abertas, locais com folhagem densa, túneis, paragens de autocarro e estradas com muito trânsito;
- Considerar colocar na pessoa uma pulseira identificativa com o contacto dos cuidadores. Uma boa solução é a Pulseira Estou Aqui Adultos;
- Colar identificativo com o contacto do cuidador informal na pessoa (pulseira estou aqui adultos)
- Considerar usar um localizador GPS (por exemplo, um sistema de teleassistência em colar, pulseira ou no cinto) ou uma aplicação do smartphone para localizar a pessoa caso tenho desaparecido.
- Se a pessoa com demência estiver desaparecida e não a conseguirmos encontrar:
- Telefonar para o 112 e informar que uma pessoa com demência está desaparecida;
- Descrever o que a pessoa tinha vestido;
- Telefonar a alguém para nos ajudar (família, amigo ou vizinho);
- Andar ou conduzir em torno do quarteirão para tentar localizar a pessoa. Se possível, ter alguém em casa para atender o telefone ou para estar presente no caso da pessoa regressar;
- Se a pessoa já tiver desaparecido no passado, verificar os locais onde a pessoa foi encontrada pois poderá haver a tendência para regressar a esses locais.
Conteúdo atualizado a 29 de Novembro de 2022