Apoiar alguém com demência a vestir e despir a sua roupa é algo importante, que inclui ajudar a pessoa a fazer movimentos, a fazer as suas escolhas, a ficar limpa e confortável e a expressar a sua identidade e estilo pessoal. A aparência física contribui para a autoestima de uma pessoa.
Para além disso, o que uma pessoa com demência tem vestido pode ajudá-la a orientar-se, a compreender onde está e o que está a fazer.
Por exemplo, se a pessoa estiver vestida com roupa mais formal, poderá pensar que vai trabalhar. Se estiver vestida com roupa com que costuma relaxar, isso vai recordá-la que não está no seu trabalho. Do mesmo modo, usar roupa com que costuma dormir, como um pijama, poderá fazê-la pensar que é de noite e está na altura de ir deitar-se.
Ajudar a pessoa nestas tarefas pode demorar muito tempo e ser emocionalmente desgastante, em especial se a pessoa com demência não estiver a colaborar.
Como vestir e despir são atividades privadas, a pessoa poderá não aceitar ajuda. Pode sentir-se envergonhada de se estar a despir à frente de outra pessoa, ou então sentir-se frustrada e zangada por perceber que é incapaz de se vestir sozinha.
Vestir e despir podem ser tarefas muito complexas para a pessoa com demência, pois envolvem vários passos para a sua realização.
Como tal, a pessoa poderá não se lembrar de como se vestir, poderá ficar assoberbada com as escolhas que tem que fazer ou poderá ser fisicamente difícil para ela vestir-se, devido a problemas de mobilidade.
As dificuldades em vestir e despir são difíceis porque afetam diversas áreas: higiene, segurança e adequação social. Algumas dificuldades frequentes da pessoa, nesta atividade diária, são:
Esquecer-se onde as roupas estão;
Esquecer-se de como apertar fechos ou botões;
Ficar sobrecarregada com demasiadas opções de roupa no armário, e não saber o que escolher;
Vestir a roupa ao contrário ou pela ordem errada, tal como a roupa interior por cima das calças;
Colocar várias camadas de roupa em simultâneo;
Usar roupa que não é apropriada para o tempo. Por exemplo, a pessoa poderá tentar ir para a rua apenas de t-shirt, em pleno inverno;
Querer utilizar a mesma roupa todos os dias;
Despir a roupa em sítios públicos;
Mudar a roupa constantemente, durante o dia;
Utilizar combinações de cores ou de roupa que não combinam;
Recusar vestir-se ou despir-se.
Causas das Dificuldades
Compreender o que pode estar na origem da pessoa não se querer mudar ou recusar apoio pode ajudar a encontrar a melhor solução para o problema. Ajuda também a colocar o comportamento da pessoa em perspetiva, fazendo com que percebamos que ela não está a ter essa atitude de propósito ou porque quer ser difícil.
Aqui ficam algumas das causas mais frequentes das dificuldades relacionadas com mudança de roupa.
Problemas físicos
A pessoa pode ter problemas motores que interferem com o seu andar e com o seu equilíbrio, ou com os gestos necessário para vestir e despir, como apertar botões ou puxar fechos;
Se a pessoa estiver deprimida, isso poderá causar uma perda de interesse na higiene pessoal e na aparência;
Alguma medicação tem como efeitos secundários tonturas ou ou maior rigidez dos movimentos (que a própria doença também pode dar);
Tem dores no corpo ou fica facilmente cansada, o que faz com que mudar de roupa seja muito mais difícil.
Alterações dos sentidos
A pessoa pode ter a visão alterada, o que faz com que não repare em nódoas ou sujidade na roupa;
Se tiver o olfato alterado, a pessoa poderá não cheirar a roupa suja e achar que está limpa;
Algumas pessoas têm alterações da temperatura corporal, o que faz com que não avaliem bem a sensação de frio e calor. Isso pode fazer com que a pessoa vista várias camadas de roupa, independentemente do tempo. Pode também fazer com que, num dia de bastante calor, a pessoa sinta que a temperatura é confortável e, por isso, vista uma camisola extra.
Problemas de memória e raciocínio
A pessoa pode não se recordar se se está a vestir ou a despir;
Pode esquecer-se que não muda de roupa há muito tempo, achando que mudou recentemente;
Pode esquecer-se que as roupas que acabou de despir estão sujas e querer vesti-las novamente;
Podem esquecer-se de como vestir as peças de roupa, vesti-las na ordem errada ou vestir várias camadas de roupa.
Problemas em tomar decisões
Vestir envolve escolher qual a roupa adequada para o tempo que está, seguir os gostos pessoais e seguir os passos numa determinada ordem;
É necessário tomar várias decisões, o que pode confundir, sobrecarregar ou frustrar a pessoa com demência, fazendo, por exemplo, com que desista e escolha não mudar de roupa.
Problemas com o ambiente
Ruído, muitas pessoas, luzes intensas ou desarrumação podem distrair a pessoa, dificultando a tarefa de vestir e despir.
Problemas com a roupa
A roupa pode estar a fazer a pessoa desconfortável, frustrada ou sobre-estimulada;
Como tal, deve evitar-se roupa que tenha muitas cores ou padrões, fechos difíceis ou que sejam desconfortáveis para a pessoa;
O desconforto pode não ser apenas físico, podendo também acontecer se o cuidador lhe vestiu alguma roupa com que a pessoa não se identifique ou se sinta mal. Por exemplo, vestir um fato-de-treino para ir à rua a um homem que sempre esteve habituado a usar fato em público.
Falta de privacidade
Vestir e despir são atividades privadas para a maioria das pessoas, e muita gente nunca se vestiu ou despiu à frente de outros, pelo que isso pode ser uma tarefa desconfortável;
A pessoa pode sentir-se envergonhada de estar nua ou em trajes menores à frente do cuidador.
Necessidade de conforto e segurança
Muitas vezes, a pessoa com demência cria e adere a uma rotina para lidar com a confusão e a perda de memória que está a vivenciar. A rotina dá o conforto e segurança de algo que é familiar;
Uma das rotinas que a pessoa pode escolher é vestir sempre a mesma roupa.
Perda de independência e necessidade de controlo
Quando uma pessoa precisa de apoio isso passa a mensagem que ela é incapaz de realizar uma tarefa. Essa perda de independência pode ser muito difícil de aceitar, especialmente quando afeta várias áreas;
O vestir e despir são muitas vezes atividades em que a pessoa com demência tenta manter a sua independência, seja insistindo em ser ela a vestir-se sozinha, quando já não tem capacidade, ou em escolher toda a sua roupa, quando já não tem noção da roupa adequada a vestir.
Estratégias Gerais
Ajudar a pessoa a vestir-se e despir-se significa favorecer que a pessoa faça escolhas e se vista por si própria, o máximo possível, ao seu próprio ritmo.
Significa também estarmos atentos a sinais de desconforto, pois a pessoa poderá já não conseguir expressar se está com frio ou calor, ou se a roupa a está a incomodar ou magoar.
Apesar de cada pessoa reagir às dificuldades à sua maneira, existem estratégias práticas que podem minimizar as dificuldades de vestir e despir, e tornar a mudança de roupa uma experiência positiva para a pessoa com demência.
Respeitar Hábitos e Preferências
É muito importante que a pessoa mantenha a sua individualidade e, como tal, deve respeitar-se o estilo e vontade da pessoa;
Deve deixar-se a pessoa fazer as suas escolhas, respeitando-se os seus gostos e preferências, e não assumir como ela se gostaria de vestir e decidir por ela;
Introduzir roupa num estilo que seja muito diferente do estilo que a pessoa sempre teve pode gerar agitação e agressividade na pessoa. Por exemplo, um homem que só usava fatos, pode sentir-se mal em calças de ganga ou de fato-de-treino. Da mesma forma, algumas mulheres que utilizaram saias e vestidos a sua vida inteira poderão não querer usar calças e ficar perturbadas se tiverem umas vestidas;
Sempre que possível, perguntar-se à pessoa o que gostaria ela de usar e respeitar a decisão. Desde que não comprometa a sua segurança, a pessoa deve poder escolher como expressa a sua identidade através das suas escolhas e aparência;
Roupa, acessórios (como relógio ou brincos) e maquilhagem podem ter significado religioso, cultural ou sentimental para a pessoa e ser uma parte importante da sua identidade;
Se a pessoa já não tiver capacidade de escolher, sempre que alguém escolhe a sua roupa deve ter em conta a personalidade da pessoa, o estilo e os hábitos anteriores;
As fotografias são uma boa forma de perceber como a pessoa gosta de ter o penteado, a roupa, a maquilhagem e os acessórios. Pode também fotografar-se conjuntos de roupa completos que a pessoa costuma usar, para lhe mostrar opções e a deixar escolher.
Garantir a Privacidade da Pessoa
Garantir o máximo possível de privacidade à pessoa;
Fechar cortinados, estores e persianas quando a pessoa está a mudar de roupa;
Se a pessoa estiver envergonhada ou hesitante, o cuidador pode virar-se de costas e deixar a pessoa vestir-se o mais que conseguir, voltando-se apenas quando for necessário ajudar.
Usar Roupa Confortável e Fácil de Vestir
Escolher roupas confortáveis que sejam fáceis de vestir e despir, ou adaptar roupas já existentes para o efeito. Isso facilitará a independência da pessoa e facilitará o apoio do cuidador, se for necessário;
Usar roupa que seja facilmente lavável e que não precise de ser passada a ferro;
Utilizar roupas simples, sem cores garridas e padrões complicados. O ideal serão roupas sem padrões ou com padrões simples e com cores sólidas e contrastantes, pois serão mais fáceis para a pessoa ver;
Usar roupas com aberturas grandes para a cabeça e braços, e com mangas largas;
Usar várias camadas de roupa fina em vez de apenas uma camada mais grossa, especialmente no tempo mais frio, pois a pessoa poderá despir uma camada se começar a sentir calor;
Casacos, camisola e blusas que se abotoam ou fecham à frente são mais fáceis de vestir e despir do que as que se vestem pela cabeça;
Utilizar puxadores de fecho grandes ou compridos, botões magnéticos ou botões de pressão;
Usar velcro. Para algumas pessoas, botões, fechos éclair, colchetes ou fivelas dos cintos podem tornar-se difíceis de usar. Nesses casos, substituir-se tudo por fechos de velcro será uma excelente solução, não só facilitando a independência da pessoa, como também ajudando o cuidador, caso seja necessário apoio;
Usar roupa um pouco larga, especialmente na cintura e ancas, com tecidos suaves e flexíveis, tais como soutiens desportivos, roupa interior e meias de algodão, calças de fato-de-treino e calções ou saias de elástico (mas certificar-se que o elástico não é muito forte, que pode magoar ou cortar a circulação);
Usar tecidos suaves e flexíveis;
Evitar roupa justa;
Evitar acessórios como cintos, joias ou lenços, a não ser que seja algo muito importante para a identidade da pessoa e a faça sentir bem;
Evitar vestir roupa demasiado comprida que poderá fazer com que a pessoa tropece;
Sapatos:
Evitar sapatos com atacadores ou fivelas, que podem ser difíceis para a pessoa;
Usar sapatos de enfiar ou sapatos com fivelas de velcro;
Garantir que os sapatos são do número certo e confortáveis;
Utilizar sapatos com solas antiderrapantes;
Chinelos ou pantufas são confortáveis, mas não devem ser usados mais do que algumas horas, pois favorecem o arrastar dos pés, o que não permite que as articulações e músculos das pernas funcionem devidamente;
Evitar usar botas pesadas ou sapatos de salto-alto;
Não andar descalça ou de meias, que poderá aumentar o risco de queda.
Para mulheres:
Um soutien que feche à frente poderá ser mais fácil para a pessoa colocar;
Soutiens desportivos podem ser uma boa solução;
Uma saia ou vestido um pouco largos serão mais fáceis para uma pessoa vestir ou para tirar quando precisa de usar a casa-de-banho;
Evitar cintas, ligas para meias, collants modeladores, meias altas tipo collant, meias apertadas e saltos altos;
Utilizar roupa interior de algodão, que não seja justa.
Para homens:
Utilizar boxers em vez de cuecas justas;
Usar gravatas com clipe de segurança, que serão mais fáceis de colocar e mais seguras.
Adaptar o Ambiente
Certificar-se que a divisão está quente, para que a pessoa não sinta frio ao despir-se e vestir-se;
Garantir que existe uma boa iluminação de teto, candeeiros e luzes de parede, para que a pessoa realize as tarefas de forma mais fácil;
Colocar uma cadeira com braços perto da cama para facilitar a tarefa de vestir e despir, em especial se a pessoa tiver desequilíbrios frequentes. Certificar-se que a cadeira é estável e robusta;
Utilizar cores contrastantes entre chão, paredes, mobiliário, candeeiros, cama e roupa da cama poderá ajudar a identificar o quarto, a roupa e os objectos no quarto com maior facilidade;
Para mais informação sobre que mudanças fazer para tornar o quarto mais seguro e adaptada à pessoa com demência, consultar Quarto.
Utilizar sinais e etiquetas para facilitar a orientação:
Colocar imagens, fotografias e palavras, ilustrando o conteúdo dos armários e gavetas e roupeiros, para ajudar a identificar o que está lá dentro. Por exemplo, colocar numa gaveta a fotografia de umas meias e a palavra “Meias” ou “Gaveta das Meias”. Isso permitirá que a pessoa encontre o que procura de forma autónoma, sem precisar de ajuda;
Também se pode colocar logo conjuntos de roupa que a pessoa usa normalmente, o que facilitará a sua escolha e orientação;
Caso as fotografias e palavras não ajudem ou, com o tempo, deixem de ser úteis, experimentar comprar armários e roupeiros com portas transparentes (idealmente com vidro reforçado e antibrilho), ou mesmo remover as portas, para que a pessoa encontre mais facilmente o que procura;
Para mais informação sobre que mudanças fazer para tornar o quarto mais seguro e adaptada à pessoa com demência, consultar Quarto.
Dar Tempo
Planear e dar tempo para a pessoa se vestir e despir, sem ser apressada;
Apressar a pessoa causará ansiedade e frustração, o que a deixará bastante agitada e dificultará ainda mais a tarefa de vestir.
Favorecer a Independência/Autonomia
Deixar a pessoa fazer o máximo que conseguir, por ela própria;
Qualquer tempo adicional que seja necessário para que a pessoa se vista ou dispa sozinho vale a pena. A capacidade de mudar de roupa sozinha faz com que a pessoa se sinta mais independente e orgulhosa, contribuindo para a sua autoestima;
Devemos manter alguma distância, deixando a pessoa fazer aquilo que consegue, mas observando para que possamos ajudar quando é necessário, ou seja, quando observamos que a pessoa está a ficar frustrada por não conseguir realizar algum passo.
Estabelecer e Cumprir uma Rotina
Criar uma rotina para a pessoa se vestir e despir, sempre no mesmo horário ou altura do dia, incluindo colocar as roupas nos mesmos locais e na mesma ordem.
Simplificar e Limitar as Escolhas
Favorecer que a pessoa faça as suas escolhas, em vez de escolhermos por ela. Escolher permite aumentar o sentido de controlo da pessoa, o que a poderá tranquilizar;
No entanto, demasiadas escolhas podem complicar o processo de tomada de decisão da pessoa. Isso poderá fazer com que entre em pânico sem saber o que escolher, ficando agitada ou agressiva;
Como tal, deve-se simplificar as escolhas da pessoa, para facilitar a sua decisão;
Dar oportunidade à pessoa para escolher o que quer vestir, mas dar-lhe apenas poucas opções, idealmente duas (“Isto ou aquilo”?);
Evitar perguntas abertas tais como “O que queres vestir?”, pois poderão sobrecarregar a pessoa, já que ela não se recordará das opções que tem. Em vez disso, perguntar, por exemplo, se prefere a camisola vermelha ou a camisola azul;
Colocar uma seleção de roupa e sapatos num local bem visível e de fácil acesso para a pessoa, como uma cómoda, uma cadeira ou uma parte aberta do roupeiro, para facilitar a escolha da pessoa e favorecer a sua independência.
Remover Roupa Desnecessária
Um roupeiro cheio de roupas pode ser confuso para a pessoa com demência, deixando-a indecisa e sem saber o que escolher;
Passar alguma roupa para uma divisão diferente, para reduzir o número de opções;
Limitar a escolha a duas ou três opções ou, caso ela prefira, a uma única opção, poderá ser tranquilizador para a pessoa, facilitando a sua escolha e até encorajando-a a vestir as roupas que se encontram já selecionadas;
Esta seleção poderá ser feita na noite anterior ou logo quando se levanta, mas sempre que possível a pessoa deverá ser envolvida na escolha. Se a seleção já incluir conjuntos de roupa com tudo a condizer, será ainda melhor;
Retirar dos armários, cómodas e gavetas roupa que:
Não seja adequada à estação ou ao tempo, para evitar que a pessoa vista roupas de verão durante o inverno, e vice-versa;
Esteja suja ou manchada;
Seja demasiado difícil e frustrante para a pessoa vestir;
Possa causar problemas (tal como um vestido comprido em que a pessoa possa tropeçar e cair), para que a pessoa não tenha a tentação de a vestir.
Preparar a roupa
Proporcionar estímulos para facilitar que a pessoa se vista da forma mais independente possível;
Colocar a roupa a vestir numa pilha bem visível, sobre um fundo sem padrões e com uma cor que contraste com as da roupa;
Colocar a roupa na ordem pela qual a pessoa a deve vestir – por exemplo, roupa interior primeiro, depois calças, a seguir camisa, depois camisola e casaco. Isso vai ajudar a pessoa a orientar-se, pois os passos já estão organizados;
Deve colocar-se a roupa pela mesma ordem e sempre no mesmo sítio (por exemplo, numa cadeira ou na cama);
Mesmo com roupa preparada na ordem certa, a pessoa poderá precisar de ajuda. Se assim for, relembrar a pessoa qual a peça de roupa que vem a seguir, ou dar-lhe as peças de roupa, uma de cada vez, enquanto damos instruções simples.
Comunicação
As instruções devem ser dadas passo a passo, utilizando frases curtas, simples e diretas, tais como “Põe os braços nas mangas”;
Ao dar instruções, ser específico sobre o que a pessoa deve fazer com a cabeça, braços e pernas. Por exemplo: “Coloca esta perna aqui”, tocando na perna da pessoa e mostrando-lhe a perna das calças onde deve ser colocada;
Completar as instruções com gestos, para ajudar a pessoa a perceber melhor o que precisa de fazer;
Elogiar e encorajar a pessoa durante a tarefa pode motivá-la a querer continuar a vestir-se sozinha durante mais tempo, aumentando a sua confiança e autoestima. Elogiá-la passo a passo, bem como à sua aparência, tornará a tarefa mais positiva e agradável para a pessoa com demência e para o cuidador que a estiver a apoiar;
Usar o humor. Se acontecer algum erro ou lapso, como colocar uma peça de roupa do avesso, deve-se ser sensível e tentar arranjar uma forma de nos rirmos, com a pessoa, dessa situação. O humor é uma ferramenta útil para aliviar uma situação.
Fases Mais Avançadas
Numa fase mais avançada, a pessoa com demência poderá já não saber quando nem como vestir-se e despir-se, e precisará de ser fisicamente ajudada a fazê-lo;
Deve tentar incluir-se a pessoa no processo de muda de roupa, em vez de se fazer tudo por ela. Por exemplo, pode pedir-se à pessoa para puxar a camisola por cima da cabeça depois de colocarmos os braços e a cabeça nas aberturas e posicionarmos corretamente a cabeça;
Pedir a opinião da pessoa. Por exemplo, enquanto se atam os sapatos da pessoa, perguntarmos se estão apertados, o que permitirá à pessoa fazer parte do processo e não ser apenas um espectador. Garantir que ouvimos a resposta da pessoa;
Utilizar pistas visuais também facilita muito o processo. Por exemplo, apontar para o pé da pessoa para que ela saiba em que pé será calçado o sapato, podendo levantá-lo;
Pistas táteis são extremamente úteis no vestir e despir. Por exemplo, um toque gentil no braço pode fazer com que a pessoa o levanta um pouco para se enfiar a manga da camisola;
Descrever o que se está a fazer para a pessoa perceber o que vai acontecer e pedir-lhe o máximo de colaboração possível. Sempre que seja necessário manipular o seu corpo, pedir-lhe permissão antes de o fazer;
Pode ser mais fácil vestir e despir a pessoa quando está sentada;
Se a pessoa não estiver a colaborar, experimentar vestir ou despir ao mesmo tempo que a pessoa. Isso poderá fazer com que ela se torne mais cooperante, pois ao ver o cuidador a despir-se poderá pensar que é a altura de o fazer;
Utilizar a técnica da Palma com Palma. Esta técnica, desenvolvida pela terapeuta ocupacional Teepa Snow, é muito útil para quando a pessoa com demência já precisa de mais ajuda para executar as tarefas;
A técnica consiste em oferecer a mão à pessoa e colocá-la sobre a mão dela como se fôssemos dar um aperto de mão, palma com palma. No entanto em vez de apertar a mão, movemos suavemente a nossa mão por cima e à volta da mão da pessoa, ficando os polegares colados e permitindo que a pessoa com demência agarre a nossa mão também;
Esta pega dá ao cuidador controlo sobre os movimentos da pessoa, grandes ou pequenos, controlando o pulso, antebraço, cotovelo e ombro;
Através desta técnica podemos, por exemplo, colocar o nosso braço na manga do casaco que a pessoa com demência vai vestir, do avesso, e depois agarrar a mão dela. De seguida, ainda agarrando a mão, fazemos a manga deslizar pelo braço da pessoa até ao ombro. Desse modo, a pessoa já vestiu metade do casaco sem fazer quase esforço;
Para além disso, esta técnica pode fazer a pessoa sentir-se incluída na tarefa, por exemplo parecendo-lhe que está a apertar botões quando somos nós que o fazemos, o que poderá diminuir a sua resistência e mesmo aumentar a sua autoestima.
No final desta secção encontrará um vídeo com uma breve demonstração de como utilizar a técnica da Palma com Palma para apoiar uma pessoa com demência a vestir uma camisola.
Outras Estratégias
Não deixar a pessoa com demência ficar de pijama o dia todo. É útil a pessoa mudar de roupa diariamente, mesmo que não vá sair ou que não tenha visitas, para manter a sua rotina;
Perguntar à pessoa se precisa de ir à casa-de-banho, antes de se vestir;
Se a pessoa usar óculos, garantir que são limpos com regularidade;
Consultar o médico para perceber se existem outras doenças ou efeitos secundários de medicação que estejam a provocar as dificuldades ou resistência, incluindo uma avaliação da depressão, em particular se a pessoa não se quer levantar da cama ou mudar de roupa com frequência.
Estratégias para Problemas Específicos
Despir a roupa
Algumas pessoas com demência querem despir-se com frequência. Isto pode ser embaraçoso e inconveniente, mas o mais provável é que a pessoa já não tenha noção do que é ou não adequado, e não que o esteja a fazer para provocar.
Algumas perguntas que podem ser feitas para avaliar a causa desse comportamento são:
Alguma das peças de roupa é desconfortável?
A pessoa é sensível a algum material ou textura?
As roupas são novas e, por isso, a pessoa acha que não são dela?
A pessoa está com demasiada roupa e, por isso, está com calor?
A pessoa precisa de ir à casa-de-banho?
A pessoa está cansada e, por isso, está a despir-se para se ir deitar?
A pessoa está aborrecida ou sem estimulação?
O ambiente está demasiado frio, quente, com muito ruído ou luminosidade?
Poderá a roupa interior da pessoa estar numa posição desconfortável ou poderá o tecido estar a provocar comichão ou irritação de pele?
Poderão as etiquetas ou costuras da roupa estar a provocar algum desconforto na pessoa?
Poderá a pessoa estar com algum problema de próstata ou uma infeção urinária?
Poderá a pessoa estar a sentir-me mal devido a um episódio de incontinência?
Será que é um sinal de que a pessoa está nervosa com alguma coisa?
Se a pessoa se despir em público:
Não levantarmos a voz, não a confrontarmos ou tentarmos vesti-la à força, pois uma reação brusca poderá fazer a pessoa ficar agitada e agressiva;
Se ficarmos calmos, é mais provável que a pessoa consiga entender e aceder a um pedido ou sugestão nossa;
Pedir à pessoa para nos ajudar na casa-de-banho e conduzi-la até lá;
Oferecer à pessoa ajuda para fechar os botões que estão desabotoados ou para fechar o fecho que está aberto;
Dizer à pessoa que deve estar com frio e oferecer o nosso casaco ou camisola.
Utilizar roupa estranha ou que não se conjuga
Desde que a roupa não interfira com a segurança ou bem-estar da pessoa, deve aceitar-se que a pessoa se vista de uma forma estranha ou desadequada. Se a pessoa estiver determinada em vestir roupa que não se conjuga, por exemplo, devemos respeitar a sua escolha e não tentar chamá-la à razão;
Não há problema da pessoa usar várias camadas de roupa, desde que isso não lhe provoque um calor excessivo;
Tentar libertarmo-nos do sentimento de vergonha. Se uma determinada roupa é a favorita da pessoa e ela se sente bem e confiante ao usá-la – e desde que a roupa esteja limpa e seja apropriada ao tempo –, então devemos deixá-la usar e ficarmos contentes por isso a fazer sentir bem. Por exemplo, se uma pessoa que sempre se vestiu de forma muito formal agora prefere usar uma camisola com bonecos, devemos deixá-la desde que ela esteja limpa e se sinta confortável e feliz;
Devemos focar o facto da pessoa ainda se conseguir vestir.
Não usar roupa adequada à estação
Devido à doença, a pessoa com demência pode ter alterações na regulação da temperatura corporal, pelo que será necessário estarmos atentos a se a roupa que veste é adequada ao tempo;
Retirar dos armários, cómodas e gavetas a roupa que não é adequada à estação;
Falar com a pessoa sobre que roupa poderá ser mais adequada para o tempo que está e as atividades que vão fazer. Se o que a pessoa quiser usar não for adequado, sugerir alternativas de forma gentil. Por exemplo: “Também gosto dessa camisola, mas estive a ver o tempo e vão dar muito frio. Talvez seja melhor levarmos também casacos, não achas?”.
Não querer mudar de roupa
Algumas pessoas resistem a vestir-se ou a despir-se, mesmo quando se vão deitar;
Isso poderá acontecer, por exemplo, porque: sofrem de incontinência e têm vergonha de mudar de roupa à frente de alguém; porque não vão sair de casa e então acham que o esforço de mudar de roupa não vale a pena, o que acontece especialmente a pessoas com dificuldades de mobilidade; é apenas uma questão do momento – a pessoa pode estar a sentir-se cansada ou zangada, e mais tarde colaborará melhor;
Estamos habituados a mudar de roupa todos os dias e a mudar para um pijama ou uma roupa diferente quando nos vamos deitar, mas nada nisso é fundamental para manter a saúde ou a higiene;
A única peça de roupa que é essencial mudar diariamente para manter uma boa higiene pessoal é a roupa interior, o que ajuda a evitar infeções urinárias;
Se a pessoa estiver limpa e confortável, não existe um motivo forte para que não possa utilizar a mesma roupa que usou durante o dia para dormir;
Antes de insistir com uma pessoa que não quer mudar de roupa, é importante considerar se é mesmo necessário que ela mude de roupa ou se é possível esperar mais um dia. Convém perceber se a roupa está suja e precisa mesmo de ser mudada ou se somos nós que estamos perturbados pela pessoa querer continuar a usar a mesma roupa, algo que não consideramos “normal”;
Evitar usar a lógica para convencer a pessoa, pois muitas vezes a lógica e a razão confundem ainda mais a pessoa com demência, deixando-a ainda mais sensível e agitada;
Evitar criticar a pessoa, dizendo coisas como “Tu usaste essa roupa a semana inteira e a roupa está suja e cheira mal”. Isso fará com que a pessoa fique ainda mais defensiva, podendo mesmo sentir-se envergonhada e humilhada por perceber que usa a mesma roupa há vários dias;
Dizer à pessoa o quanto gostaríamos que ela vestisse uma roupa nova. Podemos até mostrar outra roupa que sabemos que ela gosta ou estava habituada a utilizar;
Encorajar a pessoa a mudar-se em determinadas ocasiões, por exemplo quando alguém vai a casa fazer uma visita, quando vão ao médico ou quando vão à rua;
Retirar a roupa suja e colocar roupa nova no seu lugar enquanto a pessoa está no banho ou a dormir.
Querer usar a mesma roupa todos os dias
Algumas pessoas com demência querem usar a mesma roupa todos os dias, mesmo que esteja suja, cheire mal ou não seja apropriada para o tempo;
Comprar mais do que um conjunto de roupa igual à roupa em que a pessoa está fixada, para que se possa ir lavando um conjunto enquanto a pessoa usa outro, ou comprar roupas muito semelhantes em termos de cor e estilo;
Quando a pessoa se despe de noite, para dormir, aproveitar para colocar a roupa para lavar, para que a pessoa não a veja de manhã, quando se for vestir;
Se a roupa não estiver muito suja, pode-se deixar a pessoa usar a roupa alguns dias, prevenindo assim alguma ansiedade, conflito e desgaste.
Comprar Roupa
Se possível, incluir a pessoa no processo de comprar roupa. Tentar levar a pessoa às compras para que ela escolha o estilo e cores que prefere. Para além da escolha, também poderá ser útil a pessoa sair de casa e socializar ou apenas ver outras pessoas;
Comprar a roupa em locais que sejam familiares para a pessoa e que vão ao encontro do seu estilo e preferências. Lojas muito grandes, com muita oferta e muitas pessoas poderão sobrecarregar e agitar a pessoa;
Comprar em lojas que aceitem devoluções. Desse modo, a pessoa pode levar as roupas e experimentá-las em sua casa, com calma. Experimentar roupas num provador com pouco espaço e iluminação pode gerar confusão na pessoa e mesmo ser fisicamente difícil de vestir e despir, devido ao pouco espaço existente;
Se a pessoa precisar de experimentar roupa no local, pedir um provador que seja maior, com espaço para duas pessoas, para que a pessoa se sinta mais à vontade e tenha mais espaço para se mexer;
Se comprar roupa num local físico se tornar complicado, pode-se encomendar roupa online através de catálogos, para que a pessoa a receba e experimente em casa. Muitas destas lojas também aceitam devoluções;
Se for um cuidador a comprar a roupa, deve verificar os tamanhos da pessoa com regularidade, pois a pessoa poderá perder ou ganhar peso;
Uma pessoa com demência poderá ter que usar roupas novas algumas vezes até que se tornem familiares para ela;
A pessoa poderá não reconhecer roupas novas como sendo dela, uma vez que não se recordarão de as ter comprado. Como tal, o melhor é comprar mais roupas semelhantes ao estilo, preferências, materiais e cores que a pessoa já tem, para facilitar a aceitação da pessoa dessa nova roupa.
Demonstração da Técnica da Palma com Palma - Vestir [Vídeo]