Apesar de não existir ainda uma cura para a demência, existem vários tratamentos ou intervenções que podem atrasar a progressão da doença, favorecer a independência, manter as capacidades durante o maior período de tempo possível e melhorar o bem-estar e qualidade de vida da pessoa com demência e dos seus cuidadores.
Os tratamentos vão sempre depender do tipo de demência e das capacidades e dificuldades da pessoa, mas também das suas necessidades nos vários momentos, que se alterarão ao longo do tempo.
Como tal, é sempre importante consultar-se um médico de especialidade e outros técnicos de saúde especializados em demência – como psicólogos ou terapeutas ocupacionais – para que se perceba quais as intervenções mais adequadas no momento e como adaptá-las às capacidades, necessidades e interesses da pessoa com demência.
Apresentamos aqui uma descrição geral breve sobre as intervenções disponíveis para pessoas com demência, agrupadas em três categorias:
Apesar de não existirem tratamentos curativos, existem fármacos (medicação) específicos para a demência e com eficácia comprovada, como os inibidores da colinesterase (donepezilo, rivastigmina e galantamina) e a memantina (antagonista dos recetores NMDA do glutamato).
Constatou-se que as pessoas com Doença de Alzheimer tinham diminuição da acetilcolina (que e um neurotransmissor, ou seja, uma substância química responsável pela transmissão de mensagens de uma célula para outra) e que os inibidores da colinesterase vão aumentar os níveis da acetilcolina nas áreas do cérebro importantes para a memória e outros sintomas cognitivos.
A memantina vai normalizar o glutamato, um neurotransmissor importante na aprendizagem e memória, mas que em excesso se torna tóxico para o cérebro. A ação destes fármacos tem benefícios não só na função cognitiva geral, como também no comportamento e nas atividades de vida diária da pessoa com demência.
Inibidores da Colinesterase: Donepezilo (Aricept®); Rivastigmina (Exelon® e Prometax®); Galantamina (Reminyl®).
Antagonista dos Recetores NMDA: Memantina (Ebixa® e Axura®).
Inicialmente, os inibidores da colinesterase foram estudados e aprovados para tratar as fases iniciais a moderadamente graves da Doença de Alzheimer (alguns também já estudados nas fases graves), e a memantina para as fases moderadas a graves da Doença de Alzheimer (também já estudada nas fases iniciais com benefício ou quando há contra-indicação para os inibidores da colinesterase).
Contudo, atualmente estes medicamentos têm um espectro de utilização que inclui outras demências para além da Doença de Alzheimer, como a Demência de Corpos de Lewy, a Demência Vascular ou a Demência associada a Doença de Parkinson.
Infelizmente, estes fármacos não impedem a evolução da demência. No entanto, quando têm indicação para ser prescritos (podendo as duas classes farmacológicas serem prescritas em associação), têm como principais benefícios a melhoria, estabilização ou atraso do declínio cognitivo e funcional provocado pela doença.
Para além disso, esta terapêutica melhora também os sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência, diminuindo assim a sobrecarga do cuidador e atrasando a institucionalização (a necessidade da pessoa em ir para um lar).
Por vezes, poderá não ser possível prescrever estes fármacos ou a dose poderá ter de ser ajustada caso existam outras doenças médicas associadas. São medicamentos cuja dose inicial poderá ser aumentada progressivamente atá à dose máxima, caso haja indicação médica para tal, para um maior benefício terapêutico.
Os sintomas adversos mais frequentes dos inibidores da colinesterase são gastrointestinais (náuseas, vómitos, diarreia, falta de apetite e dor abdominal), sintomas esses que podem ser transitórios e desaparecer ao fim de algum tempo, que podem ser minimizados pela subida lenta da dose ou que podem ser evitados pelo uso dos sistemas transdérmicos (medicamento que, em vez de ser em comprimido, é um adesivo aplicado na pele).
A memantina também necessita de aumentos progressivos da dose, e os efeitos secunda rios mais frequentes podem ser insónia, vertigem, cefaleia (dor de cabeça), sonolência e agitação/alucinação, que podem ser minimizados se se fizer a subida lenta da dose.
É muito importante que todos os sintomas e efeitos secundários que apareçam sejam comunicados ao médico assistente, para que ele rapidamente possa intervir, se for necessário. Para além disso, nunca deve ser feita uma paragem abrupta da medicação, sem ser por indicação médica, pois isso poderá trazer graves complicações.
Quando aparecem outros sintomas que não sejam controlados com a medicação específica para a demência ou em que essa medicação não seja indicada – como por exemplo, na Demência Fronto-Temporal –, podem usar-se outras medicações psicofarmacológicas.
É frequente surgirem, nas pessoas com demência, os chamados sintomas psicológicos e comportamentais, que incluem depressão, ansiedade, insónia, agitação ou sintomas psicóticos (alucinações e delírios), entre outros (para saber mais sobre estes sintomas, consulte o módulo Alterações Psicológicas e de Comportamento).
Quando estes sintomas provocam sofrimento ou perigo à própria pessoa ou a terceiros, quando não apresentam uma causa médica (por exemplo, uma infeção urinária) ou quando não é possível controlá-los com a medicação específica para a demência nem por estratégias não-farmacológicas, então poderá ser necessária outra medicação, como por exemplo:
No que respeita aos antipsicóticos, devem ser feitos na dose mínima possível, durante o menor tempo possível, para minimizar efeitos secundários, existindo algumas limitações/contra-indicações nalguns tipos de demências. Como tal, especialmente nos antipsicóticos, é muito importante respeitar as indicações do médico, e não parar ou alterar a medicação sem o consultar.
A intervenção não-farmacológica refere-se ao conjunto de intervenções, junto da pessoa com demência e seus cuidadores, que não recorrem à medicação.
São complementares à intervenção farmacológica e pretendem, em termo gerais, atrasar o declínio na funcionalidade provocado pela doença, minimizar os sentimentos negativos da pessoa com demência (como tristeza, frustração, raiva ou aborrecimento) e favorecer o contacto social e a sua ligação aos outros, para, desse modo, melhorar o bem-estar e qualidade de vida da pessoa e dos seus cuidadores.
Esta intervenção inclui várias abordagens, tais como:
Uma vez que a demência é uma condição progressiva, torna-se importante ir planeando os cuidados que a pessoa precisa e precisará com a evolução da doença.
Apesar dos cuidados serem diferentes de caso para caso, é possível antecipar algumas dificuldades frequentes e prepararmo-nos para elas, existindo vários recursos sociais e legais disponíveis que, regra geral, são de grande utilidade.
Para além disso, o planeamento é também importante para que a pessoa manifeste os seus desejos e vontade numa altura em que ainda mantém capacidade para decidir e escolher.
Existem, por exemplo, recursos como o Atestado Médico de Incapacidade Multiuso, o Complemento por Dependência ou o Regime do Maior Acompanhado, que salvaguardam questões legais e proporcionam benefícios sociais e, em alguns casos, económicos.
Existe também o Testamento Vital ou Direção Antecipada de Vontade, um documento formal em que a pessoa com demência pode manifestar a sua vontade sobre os cuidados de saúde que deseja ou não receber no futuro.
Em termos de cuidados de saúde e cuidados diários, é importante antecipar algumas dificuldades ou conseguir apoio quando se começam a manifestar, tais como a necessidade da pessoa manter o cérebro estimulado, as dificuldades de mobilidade ou algumas questões de segurança.
Isto significará conhecer serviços de estimulação cognitiva ou de apoio domiciliário, centros de dia, ajudas técnicas (por exemplo, camas articuladas, cadeiras para o duche ou talheres adaptados) ou recursos como a Pulseira Estou Aqui Adultos, uma pulseira com informação útil para quando a pessoa com demência ainda é muito autónoma e existe o risco de se perder.
Para saber mais sobre os recursos sociais e legais disponíveis para pessoas com demência e os seus cuidadores, consulte o módulo Recursos Comunitários.